18 de setembro de 2017

A hipocrisia fede

Quando era criança, até pelo menos uns dez anos de idade, minha mãe determinava a hora de dormir. Quase nunca passava das nove. Não tinha “Ah, mãe!”. Era vai deitar, tá na hora, leite e cama. Raras vezes podia esticar um pouco, quando tinha visita em casa, às vezes aos domingos, mas a rotina era a de encerrar cedo a função. Minha mãe dizia “Não!” com tamanha segurança, que não deixava clima e nem espaço pra retrucar; a gente simplesmente obedecia. TV? Só desenho animado, de manhã, sessão da tarde, se não tivesse dever de casa, e novela das seis ao lado dela.

Tal modo de determinar regras talvez fosse um meio de evitar que visse coisas que ela não queria que eu soubesse, como sexo, violência, morte, outros valores que não os dela ou, ainda, algo que ela não quisesse ou não soubesse explicar.

Fosse o que fosse, a escolha sempre foi dela e do meu pai em definir os rumos da educação dos filhos. Hoje discordo e muito da criação que tive e dos valores que me foram passados, porém concordo com a firmeza em decidir o que fazer, como fazer e bancar o que determinavam. Eram pais e assumiram com tudo a responsabilidade.

É notável e cansativa a discussão a respeito atualmente. Pais e mães, sem o menor constrangimento, expõem para o mundo que entregam a educação dos filhos para programas de televisão e reclamam nas redes sociais de novelas, filmes e desenhos animados. Não acompanham, não veem, não limitam, não dizem “não pode”, e a culpa pelo “errado” que os filhos assistem é da TV.

Também os protegem de conhecer a vida. Também os escondem dentro de ambientes pseudoseguros. Pensam que as crianças vão crescer sem saber o que é sexo, drogas e rock in roll. Eles não só vão saber como vão aprender sozinhos, com colegas da escola ou nos canais proibidos que acessam quando não há ninguém em casa ou no youtube pelos seus celulares.  Também não conversam - é mais fácil esconder, não falar, não explicar, não mostrar o que ocorre na realidade e xingar e esbravejar contra a programação das TVs, exposições de arte, música, filmes e o escambau.

Com cinco anos meu filho ouviu de um amigo na escola como um casal fazia filhos. Chegou em casa e logo perguntou: “Mãe, como é que faz isso? O fulano disse que...” Sentei com ele e expliquei, na melhor linguagem possível para o entendimento de uma criança dessa idade. Com o tempo foi entendendo mesmo, com todas as letras. Aos nove anos me perguntou como os homossexuais faziam sexo. Devidamente explicado, ali na hora, tim-tim por tim-tim. Soube o que era pra saber e obtive como resposta apenas um “Ah, tá”.

Meninas de treze, quatorze anos, de classe média, estudantes de colégios particulares caríssimos estão fazendo aborto. Meninos a partir de onze anos, de mesma classe e escolas estão sendo apresentados à maconha, ao LSD. Em festas de quinze anos não é difícil encontrar embalagens do famoso docinho nas lixeiras dos banheiros. Ouvi há poucos meses, da boca de um ginecologista, olhos nos olhos, o quanto ele ficara assustado ao atender, numa segunda-feira, uma menina de treze anos, classe média de bairro de rico, toda machucada por ter disputado com as colegas quem delas “daria” mais na festa do clube no sábado anterior. A mãe só fez chorar durante toda a consulta.

Enquanto isso, a hipocrisia está nas redes e nas ruas cuspindo discursos morais completamente fora de contexto para a realidade que se vive no momento. É justamente o que parece não se ter em casa que tem levado a situações tão preocupantes, tanto de crianças sexualizadas e drogadas tão cedo, quanto de pais e mães que, cegos para a própria realidade familiar, saem por aí agitando a bandeira da moralidade. No mínimo uma incoerência pra lá de lamentável.
.
.
.


Um comentário:

Vicente Melo disse...

O preconceito, o egoísmo e a hipocrisia cegam e deformam a humanidade que deveria reinar nas pessoas.