18 de agosto de 2014

Egoísta ou sem educação?

Sempre que estou no trânsito e me revolto com aquele motorista abusado, com instinto de superioridade, divago entre falta de educação e egoísmo. Tento, em vão, chegar a alguma conclusão sobre de onde viria comportamento tão esdrúxulo no espaço coletivo. Poderia se originar da criação precária, em que não se aprende a respeitar o outro; poderia vir da má índole mesmo, afinal; ou o cara é na verdade um egoísta simples, daquele que não enxerga um palmo adiante, ao lado ou a qualquer distância além de dois centímetros do próprio umbigo. O medíocre.

Certa vez, de carona com um conhecido, passei todo o trajeto assustada, desconfortável e constrangida. O cidadão dirigia com a mão esquerda no volante e a direita na buzina, forçava passagem, não permitia que fosse ultrapassado, mesmo que o outro carro estivesse com mais da metade à frente. Cortava pelo acostamento, não dava a preferência aos mais frágeis – pedestres e ciclistas – xingava, esbravejava. Parecia estar numa guerra e seu único objetivo era vencer. Em algum momento resolvi comentar algo do tipo “não costumo fazer isso”, ao que ele respondeu de imediato: “É, mulher é assim mesmo...”

A questão não é de gênero. Trata-se de educação. Não costumo fazer nada do que ele faz por educação. Apenas isso.

E volto ao início desta conversa: falta de educação ou egoísmo? Existiria um ser tão egoísta que não pudesse ser educado devidamente e mudar sua forma de se ver e de ver o mundo? Poderia, então, sugerir que todo egoísta é mal educado? Ou todo mal educado é egoísta? E, finalmente, haveria solução para os problemas do trânsito que, tanto quanto o excesso de veículos nas ruas, são originários do mau comportamento dos motoristas, ao negligenciarem um espaço que é de todos?

Ainda pior é o egoísmo oculto: o indivíduo se posiciona de forma educada frente a seus semelhantes; é aquele que “não faz mal a ninguém, mas também não faz o bem”. Explico: é o tipo de pessoa que vive sua vidinha certinha, no entanto não levanta os olhos para o que ocorre a sua volta. Está sempre a repetir: “ainda bem que não é comigo”, “ainda bem que não é com minha filha”, “não quero nem saber, já que tô aqui quietinho, ganhando meu dinheirinho”, “trabalho todos os dias honestamente, não roubo nada de ninguém; fecho minha porta e minhas janelas e estou em paz”, “sou um cidadão de bem, esse problema não é meu”.

Por se considerar tudo isso, pensa que pode fazer o que bem entender: é aquele que não cuida do próprio lixo e o despeja de qualquer jeito na calçada em frente, do outro lado da via (quando não pendura na árvore); leva animal pra passear e não recolhe o cocô; é contra o trânsito de ônibus na sua rua, principalmente os que vêm da periferia da cidade; contrata carroceiro pra recolher entulho de obra e nem quer saber se o lixo será despejado no rio, na calada da noite; maltrata cachorro; mata gato; para o carro em fila dupla em avenida de tráfego intenso e ainda sai do veículo; promove rinha de galo ou briga de cães; transforma a sala do cinema em uma lixeira e ensina os filhos a fazerem o mesmo; estaciona o carro na porta de casa, mesmo não sendo vaga, atrapalhando o vizinho de frente a entrar com o seu veículo na garagem; joga lixo pela janela do carro (importado e branco); para o carro quase à meia-noite em frente a prédio em bairro residencial e esquece a mão na buzina, para chamar o morador do sexto andar (campainha? oi?); faz obra dentro de casa e vira massa no meio da rua; reclama que o poder público não cuida de nada e joga sofá no rio; reclama da enchente e joga lixo na rua; toca a vida com base em favores para benefício próprio; queixa-se do político corrupto, mas se estivesse no lugar dele, faria pior; defende a maioridade penal, ao mesmo tempo em que ensina o filho adolescente a ser um playboy, irresponsável, desrespeitoso, inconsequente, por quem vai pagar o que for preciso, para liberar da cadeia quantas vezes for necessário; bate na mulher.

A lista é interminável. Só de reler esse pouco já cansa, revolta. Entendidos em literatura poderiam dizer que isso não é uma crônica, pois não trata de contemplação, não tem humor e blá-blá-blá. Por outro lado, se crônica é o retrato do cotidiano, está aí o nosso, bem claro, bem real, bem egoísta, bem sem educação. Salvos alguns sobreviventes.
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Um comentário:

Anônimo disse...

Enquanto leio sua crônica, vejo, da minha janela, o vizinho desperdíçando água à vontade enquanto lava seu carro...Um dia reclamei e ele respondeu "Quem paga a minha conta sou eu".Como se o dinheiro comprasse tudo...Infeliz!